Cooperativa alagoana aquece o comércio de plantas ornamentais

De longe, as cores e formas das orquídeas chamam atenção na propriedade da médica Eleuza Passos, a cerca de 30km de Maceió, capital alagoana. Uma das sócias-fundadoras da Cooperativa dos Produtores e Exportadores de Plantas, Flores e Folhagens Tropicais de Alagoas (Comflora), ela está entre os associados que, desde 2002, ajudam a destacar a excelência da cooperativa na comercialização de flores exóticas.

Com sede em Jaraguá, a Comflora, atualmente, tem 14 cooperados. Sua principal atividade é o cultivo e a comercialização de diversas espécies de plantas tropicais com finalidades ornamentais. Hoje a cooperativa comercializa cerca de 160 mil hastes, entre plantas, flores e folhagens – material utilizado na decoração de residências, lojas, escritórios e em eventos sociais, como casamentos, congressos, aniversários e reuniões empresariais.

preservação da natureza, pois tais espécies são típicas da região de Mata Atlântica do estado. Alagoas e Pernambuco, além de Ceará, estão entre os estados que se destacam na produção e na comercialização de plantas tropicais, prática que também ganha projeção em São Paulo – principalmente na cidade de Holambra – e no Rio de Janeiro.

O início

A Comflora surgiu da Floral, associação que tinha o objetivo de promover o intercâmbio de informações sobre o cultivo dessas espécies. Em pouco tempo, as atividades se expandiram e, a partir da abertura de comercialização, inclusive com outros países, a Floral evoluiu para uma cooperativa.

Sua presidente, Maria Inês Assumpsão, participou de todo o processo de transição e lembra que o conceito de cooperativismo era algo novo para os associados. “Nesse período, promovemos palestras sobre o tema, pois queríamos mostrar como funcionava esse novo modelo de gestão”, conta. “A fundação de uma cooperativa traria muito mais vantagens do que a abertura de uma empresa.” A ideia foi aceita pela maioria dos associados.

Em pouco tempo, as vendas chegaram ao auge, tanto para o mercado interno quanto para o externo. “O ano de fundação da Comflora, 2002, foi a melhor época da cooperativa”, lembra Maria Inês. “Eram tantos pedidos que, muitas vezes, precisávamos recusar. Quando vendíamos para outros países, era melhor ainda, pois o pagamento era feito em dólar.” O sucesso do empreendimento, explica, se deu pelo fato de a cooperativa investir em aquisição de conhecimentos. “Logo no início, promovemos vários cursos para melhor atender os clientes que já tínhamos. Também participamos de cursos de pós-colheita e de embalagem. Com isso, aprendemos técnicas que nos ajudaram a nos tornar profissionais qualificados.”

Mesmo em momentos de instabilidade econômica, a cooperativa segue em constante expansão. Inês afirma que a beleza exótica das espécies é um ponto favorável. “Nosso objetivo futuro é diversificar as atividades, a fim de conquistar novos públicos”, diz. “Queremos atender desde as donas de casa que compram pequenas quantidades para ornamentar seus vasos até grandes empresas que trabalham com cerimoniais e eventos corporativos. Neste momento de crise, o importante é inovar.”

Dia a dia

O processo de produção começa com o plantio e a adubação. No tempo ideal, que varia de acordo com a espécie, faz-se a colheita e, na sequência, uma limpeza superficial em que os excedentes se transformam em adubo natural. Num segundo momento, o produto colhido é levado para um galpão onde é lavado, hidratado e preparado para o transporte até a cooperativa. Lá, as espécies ficam expostas para que sejam vendidas a granel ou em arranjos.

Também são separadas as quantias para atender às encomendas. “Contamos com os nossos clientes”, resume Maria Inês, lembrando que flores são perecíveis. “Torcemos para ter mercado para aquela flor ou aquela folhagem. Se não tiver, a gente perde e a nossa produção vira lixo.”

Exportações

As atividades de exportação da Comflora começaram no mesmo ano de sua fundação. À época, a cooperativa tinha um contato na Europa que divulgava o trabalho realizado pelos cooperados, e isso favorecia a expansão do mercado consumidor em vários países daquele continente. A cooperativa distribuiu suas plantas exóticas em Portugal, França, Holanda, Alemanha e Suíça.

“Fomos os pioneiros na exportação de plantas tropicais”, orgulha-se Maria Inês. “Começamos a exportar apenas as hastes e no fim já estávamos mandando para fora do país buquês prontos e já com código de barra. Isso para nós foi uma grande conquista, pois começamos com a cara e com a coragem. Tivemos que aprender muito. Para exportar, são exigidos padrões que vão desde a qualidade das flores e folhagens até a embalagem para transporte. Definimos esses padrões e repassamos para todos os cooperados. No início, erramos muito, mas também acertamos muito. Trabalhar com exportação foi uma experiência muito boa para todos. As exigências do mercado externo fizeram com que crescêssemos como profissionais da floricultura.”

Em 2008, a crise econômica ocorrida na Europa afetou a Comflora, causando grande queda no número de pedidos feitos por outros países. Segundo Maria Inês, a burocracia exigida na documentação para exportar e as falhas de logística também contribuíram para esse quadro. Hoje, a cooperativa não exporta mais, e os cooperados buscam novas parcerias, procurando fornecer para empresas que promovem eventos e festas, floristas e decoradores.

Amor ao trabalho

Mineira radicada em Alagoas há 34 anos, a engenheira agrônoma Jussara Moreira, uma das sócias fundadoras da Comflora, foi a primeira presidente da cooperativa. “Tenho muito orgulho de ter participado da fundação da Comflora, que ajudou a divulgar o padrão brasileiro de flores tropicais”, destaca. “Também criamos padrões para as embalagens, aperfeiçoamos os modelos de gestão e a parte legal do estatuto. Muitas cooperativas vieram nos visitar para aprender sobre o nosso funcionamento, o nosso dia a dia, e isso é gratificante.”

Jussara é dona de uma propriedade com 29 hectares a cerca de 20 km de Maceió. É nessas terras, reflorestadas em 50% com espécies nativas da Mata Atlântica, que ela cultiva as plantas comercializadas pela cooperativa. “Trabalhei durante 11 anos com produção de mudas em uma empresa de urbanização ligada à prefeitura de Maceió”, conta. “Depois, passei a atuar em manejo de parques e jardins. Saí dessa empresa quando surgiu a oportunidade de comprar esse sítio. Então, pude me dedicar integralmente às minhas terras. Trabalhei duro para reflorestar essa propriedade com plantas nativas. Hoje, posso afirmar que sou muito feliz, pois trabalho com o que realmente gosto.”

Ela reforça a importância do momento em que a associação se voltou ao cooperativismo. “Quando deixamos de ser uma associação e passamos a fazer parte de uma cooperativa, adquirimos mais compromisso com o nosso negócio. Tivemos que nos profissionalizar, aperfeiçoar os processos de gestão por meio de cursos e de experiências de outras cooperativas. Passamos a cuidar de todos os setores da cooperativa, o que engloba a área de marketing, de logística, a área administrativa, enfim, a gestão no sentido amplo – e isso nos tornou profissionais muito melhores.”

Jussara considera que a constituição da Comflora trouxe diversas melhorias para seus associados. “Só alcançamos essas conquistas nesses 14 anos de cooperativa porque trabalhamos em conjunto e com o espírito cooperativo sempre presente. Por isso, conseguimos crescer e hoje temos o nosso espaço no mercado. Nosso nome é respeitado e, apesar da crise, estamos buscando novos consumidores. Em grupo você consegue muito mais do que sozinho.”

Um recomeço

A médica Eleuza Passos voltou suas atenções às plantas tropicais logo depois de ter ficado viúva. Diz ter encontrado nas flores, plantas e folhagens um caminho para o recomeço, transformando sua vida. Em sua propriedade, a cerca de 30 km de Maceió, ela cultiva diversas espécies, entre as quais se destacam as orquídeas. “Sou completamente apaixonada pelas minhas orquídeas”, ressalta. “Há algumas delas que eu não vendo, não troco, não dou. São os meus xodós. Muitas vezes, eu brinco dizendo que as orquídeas são como filhas para mim.”

Eleuza vê os cooperados como membros de sua família e diz ser muito grata por tudo que aprendeu sobre o cultivo de plantas tropicais durante todos esses anos. “Logo no início da Comflora, promovemos uma excursão para a Costa Rica. Nossa intenção era aprender mais sobre as peculiaridades das plantas tropicais. Queríamos saber sobre técnicas de cultivo, de corte, formas de manipulação. Foi uma experiência muito interessante. Lá, tivemos contato com espécies que até então nunca havíamos visto. Trocamos experiências e acredito que todos aprendemos muito.”

Emprego e renda

Empregados que trabalham nas propriedades dos cooperados da Comflora são permanentemente treinados para aprimorar a mão de obra. É necessário conhecer as peculiaridades de cada uma das espécies, para que a colheita e o manejo sejam realizados de uma forma que não as danifique e a irrigação e adubagem ocorram na medida correta.

Ivanildo Miranda, funcionário de Eleuza Passos há dois anos, diz ter recebido todas essas orientações assim que começou a trabalhar no sítio da médica. Com a ajuda de um colega, ele cuida de todas as espécies que lá são cultivadas. “Aqui eu cuido das plantas, molho, faço a poda. Planto, renovo o canteiro e, dessa forma, a gente consegue produzir mais flores.”

Empregada da Comflora há três anos, Nubiana Silva foi contratada para cuidar dos serviços administrativos da cooperativa, porém o convívio com as plantas, flores e folhagens tropicais despertou nela uma segunda profissão: a de florista. Hoje, elabora belos arranjos, talento que a cooperativa estimula inscrevendo-a em encontros e seminários. “Me descobriram como florista aqui na Comflora, porque até então eu não me via assim”, explica. “Eu me habituei a ver os floristas trabalhando e, de tanto observar, me senti à vontade para elaborar arranjos, que sempre ganhavam elogios. A partir desses estímulos, passei a aprimorar as minhas técnicas de montagem e a participar de encontros com os cooperados. Hoje, sim, posso dizer que sou uma florista.”

Programa de aperfeiçoamento

Para incentivar o desenvolvimento da cooperativa, a unidade alagoana da OCB integrou a Comflora no Programa de Acompanhamento de Gestão Cooperativa (PAGC). O projeto é uma iniciativa do Sescoop em parceria com as unidades estaduais, e tem foco nos aspectos legais e societários da cooperativa.

O presidente do Sistema OCB/ AL, Marcos Rocha, explica que o programa funciona como um diagnóstico das cooperativas e oferece, anualmente, orientações técnicas, elaboração e acompanhamento de planos de melhoria. As oportunidades identificadas no PAGC auxiliam a cooperativa a melhorar suas prá- ticas de governança e a aumentar sua segurança jurídica.

“Esse trabalho contempla o preenchimento de um questionário que tem a função de analisar a conformidade da cooperativa com o estatuto, livros e registros obrigatórios, procedimentos das assembleias gerais e dos conselhos, fundos e atribuições”, detalha. “Após a conclusão, um relatório com resultados e indicadores é gerado e entregue à cooperativa com as devidas orientações de ajustes de melhorias, caso necessário.”

Qualificação

Representantes da Comflora participam, constantemente, de eventos focados em qualificação profissional, como encontros e congressos. “É um processo de desenvolvimento da prática profissional”, reforça a superintendente do Sistema OCB/AL, Márcia Túlia Pessôa. “Além disso, os participantes sempre oferecem oficinas sobre o que aprenderam para outras cooperativas interessadas, então se tornam multiplicadores do conhecimento adquirido.”

A presidente da Comflora reconhece que o apoio do Sistema OCB/ AL é fundamental: “O mercado de flores é bem definido no Brasil, por isso é importante participarmos de eventos. Durante dois anos, conseguimos colocar uma de nossas flores como tendência e isso teve um peso positivo para nós. Hoje, a gente tenta adaptar a nossa produção às tendências lançadas em feiras e congressos. É o momento em que nossos floristas adquirem conhecimento para fazer a adaptação dos arranjos tradicionais com as flores tropicais”.

Beleza incomum

Com formas, cores e tamanhos dos mais variados, as orquídeas fazem parte da ordem das Asparagales, uma das maiores famílias de plantas existentes no mundo. Podem ser vistas em todos os continentes – com exceção da Antártida –, predominando nas áreas tropicais.

Crescem sobre as árvores, que utilizam como apoio para buscar a luz, porém não são plantas parasitas: nutrem-se apenas do material em decomposição que, ao se desprender das folhagens e dos troncos, acumula-se em suas raízes. São mundialmente conhecidas por sua beleza exótica, razão pela qual grande parte de suas variedades é utilizada com finalidade ornamental. Conheça mais sobre a produção da cooperativa no site www.comflora.com.br.

Fonte: Sistema OCB-AL

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